Meu nome é Úrsula. Só isso: Úrsula...
Invariavelmente Úrsula.
A verdade é que eu não gosto de frutas!
Não gosto e não como. (já que em tantos outros aspectos da minha vida eu preciso engolir suportando o sabor ou não)
Não como a mínima fruta! Inclusive, meu bem, se dependesse de mim, estaríamos todos no paraíso...
Eu não daria ousadia pra uma frutinha avermelhada. Eu não sou mulher de dar ousadia, ou melhor: Eu sou mulher de dar ousadia pra quem eu quero. Não como frutas!
Quer me julgar? Á vontade...
Desculpa eu começar assim, logo com uma verdade, mas é que elas são urgentes e me estruturam, na minha falta de comportamento geral.
Até suco de fruta... Só tomo se for de caixinha, e se vier com aquele “gominho”
do carinho eu coou... Acho tão indignante a gente comprar um suco artificial
que diz vir com carinho. Se quisesse carinho ligava para a minha mãe, ou para
qualquer outro desconhecido... Sempre dependi da boa vontade de estranhos.
Sempre gostei de me apaixonar por estranhos, por completos desconhecidos. Acho
que o outro sempre será um completo desconhecido. Não importa o quanto eu
tente... Me aproximar, me mostrar, entender... Tudo é sempre tão superficial,
tão de caixinha e quando eu acho uma brecha pra sentir de verdade me agarro
naquilo que nem um carrapato, e começo a fazer tudo errado.
Eu penso: Já que não tenho mais nada pra sentir, vou ficar aqui mesmo sentindo esse negócio meio... Meio... Meio controlável que a vida me deu pra sentir. Sentir é uma grande ilusão! Ás vezes eu fico tão obcecada pela verossimilhança da minha sensação que esqueço do abandono necessário pra sentir alguma coisa, nem que essa coisa seja vontade. Vontade de comer um doce... Como se todos os meus problemas pudessem ser diluídos em açúcar. Em determinados momentos eu me sinto no DIREITO de comer um doce: Quando tô cansada, ou de tpm, ou com muita saudade... Ou quando eu fico pra morrer quando leio na caixa de suco: 100% natural.
Tudo que parece muito orgânico me incomoda.
Há uns dois anos atrás, eu comprei um conjunto de calcinhas 100% algodão, eram coloridas e infantis e acariciavam a minha pele com a segurança arcaica de tudo que é 100% alguma coisa....
E eu as usava sem pudor! Já que aprendi, que os objetos estão aí para serem usados... Diferente das pessoas não é, Ursula?
É sim, é sim!!
Sou saudável de outras tantas formas que não na alimentação....
As calcinhas, por exemplo... Elas apareciam por debaixo das roupas mais neutras... Entre os tons de bege, branco, amarelinho e rosa, ou quando o tecido era muito fino elas se exibiam para o mundo... Eu não me importava... Não mesmo! Sou uma mulher de convicções firmes e concretas.
Mas esse povinho besta também é cheio de firmezas estupidas!
E me escolheram pra cristo (ou melhor pra Madalena) e quando eu caminhava ouvia entre dentes e soslaios vesgos de tanto forçar a vista “Lá vai Úrsula, a transparente” “Ó, essa aí se querendo...”
Pensei que se eu fosse canonizada, Úrsula, a transparente era uma ótima! E eu me quero mesmo. Me quero tão transparente que você vai poder se servir através de mim e se eu quiser assistir televisão bem pertinho não vou atrapalhar ninguém, e se no cinema eu resolver alisar os atores pela tela ninguém vai nem notar.
E eu fui aguentando aquilo..
Úrsula, a transparente
Úrsula, a piedosa
Úrsula, a nem aí
Úrsula, a que não
Úrsula, a que quer e não
Úrsula, a ...
Úrsula, a covarde.
E era...
Um dia eu fui ao salão de beleza. O mesmo salão de beleza, que ficava na mesma rua torta, com as mesmas bestices e os mesmos paus secos de toda uma vida... E eu fui! Porque já que sempre fui, não sabia fazer diferente!
Me sentei e enquanto eu esperava para ser atendida analisava com uma precisão bélica, as possibilidades de esmaltes que tinham na nécessaire..
Se tem uma coisa que sempre me impressionou na vida, é o nome de um esmalte! Gente... Invejo esse emprego! Inventadora de nome de esmalte!
E tem uma parte de mim que escolhe o esmalte pelo nome e não pela cor...
Obsessão, Rosa Chiclete, Apuros em Miami, Carmem, Gabrielle, Azulcrination, Mashmellow de alfazema, Há Há Há..... Impressionante! Porque pintar a unha de vermelho se eu posso pintar de “Louca Paixão”
Resolvi falar pra manicure “Pinta de uma cor que você acha que combina comigo”
E ela pintou de branco.
BRANCO.
Da mesma cor da minha covardia, em fingir que não me importava.
Engoli travoso, peguei um revista para fêmeas bem comportadas e folheei...
BRANCO? Você por acaso não tá vendo a cor da minha calcinha?
Folheei.... Branco né?
Na revista dizia que eu deveria ser magra, firme, boa esposa, boa mãe, praticar exercícios físicos (e me dava uma lista de quais e como fazer), que eu deveria usar uma maquiagem discreta só para cobrir as minhas imperfeições (e me dizia quais eram os meus defeitos), tinha alguns depoimentos de mulheres que venceram na vida e respeitavam todos os itens que eu já falei..
Eu deveria ser divertida, moderna, antenada... Ter um bom emprego, uma boa casa, uma boa alimentação (e tinha uma infinidade de dietas, todas pautadas em comer menos pão e mais FRUTAS)
Respirei fundo... Eu não como frutas. Eu não como frutas, Eu não como frutas!
Você por acaso não está vendo a cor da minha calcinha? É a típica cor de quem diz NÃO.
NÃO QUERO, NÃO VOU, NÃO ME IMPORTO, NÃO COMO FRUTAS.
É uma cor que nem nome de esmalte é capaz de abarcar
Saí do salão sem pagar a conta! Já era um bom motivo pra nunca mais voltar lá! Não sei se nunca, mas pelo menos por um tempo.
Fui tomada por uma força que até então desconhecia, uma força violentamente sagrada... Esqueci esmaltes, anéis, dedos de prosa, caminhei certeira em direção ao meu futuro! Saiam todos do meu caminho que eu estou indo em direção ao meu futuro...
Foi uma redenção total: Joguei fora antigos papéis, antigas magoas, antigas culpas, troquei de vestido, troquei o padrão do tecido, troquei os móveis de lugar... Aprendi astrologia, física quântica e teatro oriental. Cortei o cabelo, cortei antigos vínculos, cortei um pedaço de xita e forrei o sofá da sala. Eliminei as dúvidas, o medo de escuro, a espera ao telefone, os prazos de validade e as conversas superficiais... Eu rompi todos os ligamentos superficiais...
E enquanto eu ligava pro restaurante pra fazer uma reserva “Uma mesa pra um, por favor”
Pensava em como vestir essa nova mulher, livre como um cavalo... E pra glorificar e eternizar a essência do meu ser, pra transpor toda essa originalidade que não me cabia, eu calcei, ousada e decidida: Um sapato de cada cor!
Um sapato de cada cor... Tá vendo aí? Jamais mulher alguma foi tão subversiva! Está pra nascer uma mulher que chegue aos meus pés no quesito subversão...
Cada passo que eu dava o mundo inteiro tremia, e deitava absolutamente aos meus pés, admirado com tamanha coragem.
Entrei no restaurante e pedi primeiro a sobremesa, pedi um sorvete gigante e comi somente a cereja... Levantei, paguei a conta e tive plena consciência de toda ventania que escapulia pelos meus poros! Nada me contém, nada me contém, nada me contém... Existo para além do meu corpo, para além das minhas próprias regras, para além da necessidade de me fazer rebelde e sensata.
Observei Úrsula... E tentei pela primeira vez ser eu, esquecendo do meu próprio nome, esquecendo do que sou chamada, das contas a pagar e das peças perdidas do eterno quebra cabeça que eu já me cansei faz tempo... Acho que preciso usar óculos...
O próprio umbigo pode ser perigoso como um abismo, coloquei uma roupa de banho adequada e mergulhei.... E passei a viver em neon! Letreiros que se formavam dizendo ame, ame, ame....
Renovei o guarda roupa
Foi como se eu resolvesse me vestir inteira com a cor das minhas próprias calcinhas e o fiz.
E me senti tão mulher, tão convicta, tão presente, tão selvagem....
E foi assim que aconteceu. Não podia contar história mais transparente aqui!
Hoje em eu dia só uso calcinhas bege. Acho que o 100% matou alguma coisa em mim...
(morde uma maçã)
Invariavelmente Úrsula.
A verdade é que eu não gosto de frutas!
Não gosto e não como. (já que em tantos outros aspectos da minha vida eu preciso engolir suportando o sabor ou não)
Não como a mínima fruta! Inclusive, meu bem, se dependesse de mim, estaríamos todos no paraíso...
Eu não daria ousadia pra uma frutinha avermelhada. Eu não sou mulher de dar ousadia, ou melhor: Eu sou mulher de dar ousadia pra quem eu quero. Não como frutas!
Quer me julgar? Á vontade...
Desculpa eu começar assim, logo com uma verdade, mas é que elas são urgentes e me estruturam, na minha falta de comportamento geral.
Eu penso: Já que não tenho mais nada pra sentir, vou ficar aqui mesmo sentindo esse negócio meio... Meio... Meio controlável que a vida me deu pra sentir. Sentir é uma grande ilusão! Ás vezes eu fico tão obcecada pela verossimilhança da minha sensação que esqueço do abandono necessário pra sentir alguma coisa, nem que essa coisa seja vontade. Vontade de comer um doce... Como se todos os meus problemas pudessem ser diluídos em açúcar. Em determinados momentos eu me sinto no DIREITO de comer um doce: Quando tô cansada, ou de tpm, ou com muita saudade... Ou quando eu fico pra morrer quando leio na caixa de suco: 100% natural.
Tudo que parece muito orgânico me incomoda.
Há uns dois anos atrás, eu comprei um conjunto de calcinhas 100% algodão, eram coloridas e infantis e acariciavam a minha pele com a segurança arcaica de tudo que é 100% alguma coisa....
E eu as usava sem pudor! Já que aprendi, que os objetos estão aí para serem usados... Diferente das pessoas não é, Ursula?
É sim, é sim!!
Sou saudável de outras tantas formas que não na alimentação....
As calcinhas, por exemplo... Elas apareciam por debaixo das roupas mais neutras... Entre os tons de bege, branco, amarelinho e rosa, ou quando o tecido era muito fino elas se exibiam para o mundo... Eu não me importava... Não mesmo! Sou uma mulher de convicções firmes e concretas.
Mas esse povinho besta também é cheio de firmezas estupidas!
E me escolheram pra cristo (ou melhor pra Madalena) e quando eu caminhava ouvia entre dentes e soslaios vesgos de tanto forçar a vista “Lá vai Úrsula, a transparente” “Ó, essa aí se querendo...”
Pensei que se eu fosse canonizada, Úrsula, a transparente era uma ótima! E eu me quero mesmo. Me quero tão transparente que você vai poder se servir através de mim e se eu quiser assistir televisão bem pertinho não vou atrapalhar ninguém, e se no cinema eu resolver alisar os atores pela tela ninguém vai nem notar.
E eu fui aguentando aquilo..
Úrsula, a transparente
Úrsula, a piedosa
Úrsula, a nem aí
Úrsula, a que não
Úrsula, a que quer e não
Úrsula, a ...
Úrsula, a covarde.
E era...
Um dia eu fui ao salão de beleza. O mesmo salão de beleza, que ficava na mesma rua torta, com as mesmas bestices e os mesmos paus secos de toda uma vida... E eu fui! Porque já que sempre fui, não sabia fazer diferente!
Me sentei e enquanto eu esperava para ser atendida analisava com uma precisão bélica, as possibilidades de esmaltes que tinham na nécessaire..
Se tem uma coisa que sempre me impressionou na vida, é o nome de um esmalte! Gente... Invejo esse emprego! Inventadora de nome de esmalte!
E tem uma parte de mim que escolhe o esmalte pelo nome e não pela cor...
Obsessão, Rosa Chiclete, Apuros em Miami, Carmem, Gabrielle, Azulcrination, Mashmellow de alfazema, Há Há Há..... Impressionante! Porque pintar a unha de vermelho se eu posso pintar de “Louca Paixão”
Resolvi falar pra manicure “Pinta de uma cor que você acha que combina comigo”
E ela pintou de branco.
BRANCO.
Da mesma cor da minha covardia, em fingir que não me importava.
Engoli travoso, peguei um revista para fêmeas bem comportadas e folheei...
BRANCO? Você por acaso não tá vendo a cor da minha calcinha?
Folheei.... Branco né?
Na revista dizia que eu deveria ser magra, firme, boa esposa, boa mãe, praticar exercícios físicos (e me dava uma lista de quais e como fazer), que eu deveria usar uma maquiagem discreta só para cobrir as minhas imperfeições (e me dizia quais eram os meus defeitos), tinha alguns depoimentos de mulheres que venceram na vida e respeitavam todos os itens que eu já falei..
Eu deveria ser divertida, moderna, antenada... Ter um bom emprego, uma boa casa, uma boa alimentação (e tinha uma infinidade de dietas, todas pautadas em comer menos pão e mais FRUTAS)
Respirei fundo... Eu não como frutas. Eu não como frutas, Eu não como frutas!
Você por acaso não está vendo a cor da minha calcinha? É a típica cor de quem diz NÃO.
NÃO QUERO, NÃO VOU, NÃO ME IMPORTO, NÃO COMO FRUTAS.
É uma cor que nem nome de esmalte é capaz de abarcar
Saí do salão sem pagar a conta! Já era um bom motivo pra nunca mais voltar lá! Não sei se nunca, mas pelo menos por um tempo.
Fui tomada por uma força que até então desconhecia, uma força violentamente sagrada... Esqueci esmaltes, anéis, dedos de prosa, caminhei certeira em direção ao meu futuro! Saiam todos do meu caminho que eu estou indo em direção ao meu futuro...
Foi uma redenção total: Joguei fora antigos papéis, antigas magoas, antigas culpas, troquei de vestido, troquei o padrão do tecido, troquei os móveis de lugar... Aprendi astrologia, física quântica e teatro oriental. Cortei o cabelo, cortei antigos vínculos, cortei um pedaço de xita e forrei o sofá da sala. Eliminei as dúvidas, o medo de escuro, a espera ao telefone, os prazos de validade e as conversas superficiais... Eu rompi todos os ligamentos superficiais...
E enquanto eu ligava pro restaurante pra fazer uma reserva “Uma mesa pra um, por favor”
Pensava em como vestir essa nova mulher, livre como um cavalo... E pra glorificar e eternizar a essência do meu ser, pra transpor toda essa originalidade que não me cabia, eu calcei, ousada e decidida: Um sapato de cada cor!
Um sapato de cada cor... Tá vendo aí? Jamais mulher alguma foi tão subversiva! Está pra nascer uma mulher que chegue aos meus pés no quesito subversão...
Cada passo que eu dava o mundo inteiro tremia, e deitava absolutamente aos meus pés, admirado com tamanha coragem.
Entrei no restaurante e pedi primeiro a sobremesa, pedi um sorvete gigante e comi somente a cereja... Levantei, paguei a conta e tive plena consciência de toda ventania que escapulia pelos meus poros! Nada me contém, nada me contém, nada me contém... Existo para além do meu corpo, para além das minhas próprias regras, para além da necessidade de me fazer rebelde e sensata.
Observei Úrsula... E tentei pela primeira vez ser eu, esquecendo do meu próprio nome, esquecendo do que sou chamada, das contas a pagar e das peças perdidas do eterno quebra cabeça que eu já me cansei faz tempo... Acho que preciso usar óculos...
O próprio umbigo pode ser perigoso como um abismo, coloquei uma roupa de banho adequada e mergulhei.... E passei a viver em neon! Letreiros que se formavam dizendo ame, ame, ame....
Renovei o guarda roupa
Foi como se eu resolvesse me vestir inteira com a cor das minhas próprias calcinhas e o fiz.
E me senti tão mulher, tão convicta, tão presente, tão selvagem....
E foi assim que aconteceu. Não podia contar história mais transparente aqui!
Hoje em eu dia só uso calcinhas bege. Acho que o 100% matou alguma coisa em mim...
(morde uma maçã)
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