quinta-feira, 8 de março de 2018

GEORGIA

Ela atravessa um longo corredor adornado por luzes brancas, ecológicas.
toc,toc,toc,toc
tamanquinhos tão estúpidos quanto a necessidade de usar onomatopeias, barulho que ecoa, som ritmado, casado com o pulso do seu coração
tum, tum, tum, tum...
fluxo sanguíneo, talvez um pouco de suor escorrendo pela testa, órgãos, pelos, secreções variadas -  tudo tentando mantê-la coesa num ballet vigoroso e rodopiante, limitada ao contorno do seu corpo.
Ela atravessa um longo corredor adornado por luzes brancas, ecológicas.
Novo tempo de um futuro inevitável, dois e mil e mais algumas centenas: superou-se a terceira guerra, pouca água, muito plástico, navegações espaciais acessíveis à classe média (principalmente acumulando milhagens)... Novo tempo! Existe um procedimento bem caro, mas já possível de realizar pelo SUS: ARMAMENTO ÍNTIMO.
Mulheres podem instalar no canal vaginal os seguintes itens: pistolas, escopetas, fuzis, espingardas (aconselhada apenas a mulheres que tiveram fácil adaptação ao DIU), carabinas, rifles, submetralhadoras ou um lançador com mini adagas afiadas (indicado paras as mocinhas que ainda não tiveram sua primeira menstruação) - Tudo hipoalergênico e disponível também nas versões rosa, roxo e gliterizado. 
Georgia atravessa um longo corredor adornado por luzes brancas, ecológicas.
toc, toc, toc, toc
ainda adaptando-se ao processo, mas ansiosa para agir em legitima defesa. Ainda adaptando-se ao novo peso, mas driblando o medo de que ao primeiro espirro a pistola escorregue pro chão.
Tamanquinhos ritmados, certeiros em caminhar tranquilamente até a sua casa, mesmo que tarde da noite... equilibrando-se por entre as pedras da calçada, Georgia tal qual um felino grande e caçador, faz o seu trajeto. A rua completamente vazia, a pistola em descanso, os dedinhos ansiosos que procuram a chave do portão na bolsa. Deu tudo certo, ufa.
Dorme-acorda-calcula contas-toma banho-organiza minimamente a vida ou a agenda... Café preto que se traveste de incenso e perfuma tudo tudo, Georgia prontamente caminha até a padaria pra cumprir com dignidade esse ritual repetitivo que é acordar todas as manhãs. Chinelinhos que se arrastam
shulep shulep shulep....
A padaria fica a três quadras
shulep shulep shulep...
Eis que uma Boca babada e gorda: bom dia, princesa (som de sucção)
Georgia interrompe seu caminho 
- Será que é a hora?...  Antes de optar pelo armamento, tomou aulas de Muai thai e ioga, grande controle respiratório-espiritual.... Georgia esvazia completamente o pulmão, retoma seu caminho e o seu shulep-shulep
A Boca insiste: gosssssssssssssssssssssssstosa
quase que em câmera lenta e completamente consciente de seus direitos, Georgia deixa a calça do pijama escorregar até os joelhos, pressiona levemente seu clitóris por cima da calcinha bege com flores roxas
POW
um disparo que acerta por entre os olhos em cima da boca insistente, tiro cósmico perfura o terceiro olho daquele homem que agora caía no chão como uma fruta bem podre. Poça de sangue se forma na calçada.
Georgia suspende a calça e segue...
shulep shulep shulep...
Sem grandes percalços na padaria, pão costuma apaziguar os ânimos... Tudo se resolveu com um calculado tiro de raspão num sujeito que a encarava pressionando os olhinhos como num convite que só se pode recusar... 
Georgia ainda tentava com os homens, namorou após o armamento 4 beldades
1 – Jhoni Bravo - adoravelmente estupido e musculoso,  encarregava-se de todas as funções braçais, tais como: abrir potes, montar estantes, carregar bujão de gás... Além disso ele gostava de futebol, pornografia,  carne mal passada e UFC.. Maravilhosamente masculino, dispunha de uma violência tão óbvia, que na primeira sentença começada em “mulher que não se dá ao respeito...” ou “eu acho que o aborto é....” ou ainda “mulher minha não...” recebeu delicadamente um tiro em cada joelho e depois de muito chorar e implorar para que Georgia não compartilhasse o vídeo que ela estava fazendo, morreu de susto mesmo quando ameaçado pela penetração de mais uma bala
2 – Don Juan - fazia o tipo boa pinta, tinha um sedutor sotaque , adepto do poliamor e da culinária vegana. Sempre comparava Georgia com outras mulheres, dissolvendo a autoestima da nossa heroína. Ele se dizia um amante da figura da feminina, principalmente da figura que o servia. Georgia era responsável pela organização da casa, da comida, dos futuros, enquanto Don Juan não lavava nem a sua própria cueca, ao se dar conta, meteu-lhe um tiro bem no meio do coração, colorindo o chão em inúmeros tons de vermelho... Sujeira essa, feita pelo sangue, que Georgia se recusou a limpar.
3 – Sabichão – politicamente engajado, carreira acadêmica, teorias belíssimas sobre todas as coisas, que se desmanchavam no ar quando questionavam o seu próprio comportamento. Sabichão falava com maestria e falava muito, sempre interrompendo, ponderando e ajudando Georgia... Inclusive sobre feminismo Sabichão sabia mais, óbvio... Então, Georgia se viu como tanto a olharam: louca demais, sensível demais, não podia se deparar com um copo d’agua dando sopa que seu impulso primeiro e mais primitivo era de fazer uma tempestade... Até que ele deixou escapar, foi por uma brecha mínima, um bom mocismo misógino e autoritário: “eu não vou permitir que você use o feminismo dessa forma só pra ganhar a discussão” POOOOOOOOOOOOOOOW! Nessa reprodução cafona de poder... E pra surpresa geral, Sabichão caiu morto no chão, mas dentro do seu corpo não circulava uma gota de sangue.
4 – Poetinha – um fofo! Artista libertário, homem sensível, fotos abstratas no Instagram. Gostava do bar mais alternativo, da música mais underground, do filme mais deprimido. Poetinha tinha uma sexualidade difusa, transcendental e liquida. Durante o sexo chamava Georgia de minha musa e escrevia poeminhas de amor e gozo pelos corpos que se conectavam na cama. Mas ainda assim pra ele o sexo começava com a penetração e terminava quando ele gozava, fora isso tinha em seu repertório de “preliminares”: um oral bem meia boca, de quem faz tudo rápido demais e uma unha comprida pra tocar violão que só desgraçava as tentativas. Georgia poupou a munição de sua pistola, tirou poetinha do pedestal e disse: você é um artista de merda. Pronto. Ele chorou tanto que se engasgou e morreu.

Georgia ainda tentava com os homens, mas isso lhe custava muita energia. E essa energia gasta precisava ser levada em conta, quem sabe reduzida do seu imposto ou algo assim. A principio ela anotava a quantidade de mortos num caderninho, depois a coisa tomou um certo automatismo. Georgia passou a ser respeitada nos lugares que frequentava, ocupava a rua sem maiores preocupações e a noticia correu... Correu rápida e urgente, na mesma proporção em que outras mulheres precisavam dessa autorização do Estado pra disparar uns tirinhos. Surgiam as mais variadas denúncias, os mais variados relatos de violência, os machismos em suas tantas caras e Georgia impávida e viril pressionava o seu clitóris com muito carinho e precisão.
POW pof  POW pof POW pof  SOC POW pof TUM POW pof !!!
Um cotidiano banhado de sangue, clitóris e resoluções... Tudo somado a uma solidão que sei lá como se cura. Até que:
Óóóóóóóóóóóóóóóóóóóó (som de algo divino)
Georgia conheceu outras mulheres que também andavam armadas, mulheres que também optaram por defender-se... Eram tantas bocas lindas articulando histórias, que poderiam ter saído de qualquer outra boca presente naquele ambiente. Mulher quando fala dá beijos longuíssimos de uma compreensão que ultrapassa... É uma
alcateia, um cardume, uma matilha, uma manada, um bando, um rebanho, uma matula, uma ninhada, uma quadrilha, um ramalhete, uma corja, uma choldra, uma horda uma caravana, uma cambada, uma frota, uma legião, uma constelação, um coro, uma tropa, uma gangue... Multidão! 
A armada das armadas, com direito a uniforme de super heroína: debateram sobre o couro, flertou-se com a possibilidade da lycra, baniram o jeans e os super decotes assim como o maiô e a saia plissada... Era preciso proteção e praticidade nesse uniforme, o desconforto fashion fica pra mais tarde.  Optaram por uma espécie de macacão feito de helanquinha , com um recorte vazado na região da vagina para facilitar o tiroteio, zíper nos seios para as heroínas que amamentam, velcro  por entre as coxas pra agilizar a fila do xixi e não molhar o uniforme, mais os adereços opcionais – ombreira, gola rolê, ou estampa de animal print. Criaram também um símbolo possível de se projetar no céu: Um triângulo vermelho apontado pra baixo, num fundo branco, com os seguintes escritos nas laterais “Libertas quae sera tamen”
Tuf Tuf Tuf Tuf Tuf Tuf Tuf....
Soavam os coturnos da armada quando corriam pela rua, ou pulavam de poste em poste a cada chamado desenhado no céu. Era uma avalanche, uma espécie de tsunami violenta como só a água sabe ser e ensinar.  Envenenou-se  a própria gramática, toda vez que as palavras nojo e vagina estavam concordando na mesma sentença o cidadão já caía morto no chão. Equiparação, revolta, revanche, vingança: Um convite bordado com vísceras históricas, um encontro urgentíssimo no qual ninguém teve a coragem de aparecer.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

ssa-sp

Minha mãe é uma senhora bem gorda, dos olhos azuis. Ela fica sentada numa pedra qualquer, lavando os pezinhos na beira do rio... A cada dia, alguém vem mamar em um dos seus mil peitos. Ela alimenta todo mundo: dá de comer a crianças feias, a animais selvagens e a adultos arrependidos... Toda vez que alguém chora, cresce mais um peito no seu corpo redondo e as lágrimas se transformam no mais nutritivo leite. Até que ela se cansa, mergulha no Rio e vai embora. Vai embora como se nunca tivesse prometido ficar e chora arrependida acelerando o curso das aguas. Minha mãe carrega uma culpa que envenena o leite na mesma proporção em que nutri... Minha mãe sabe todas as cantigas do mundo e escuto sua voz ecoando sempre que me concentro um pouco.
Meu pai é um frango assado trajando um paletó caro e amarrotado pela viagem... Enquanto galo, reinava absoluto num galinheiro onde as cloacas só expeliam ovos de ouro. Meu pai brigava com pavões, urubus, andorinhas, papagaios, e as galinhas sempre tão alvoraçadas pela eximia exibição de masculinidade. Hoje, velho e viril, caminha na ponte aérea em busca de um sossego que não existe a não ser dentro dele. Sossego esse, facilmente acessível com uma carga horária significativa de terapia. Meu pai sempre precisou de dois frangos: um pra cantar de galo e outro para estar ao meu lado a todo o momento.
Então, eu decidi vir para São Paulo. Minha mãe me segurou por uma mão, meu pai pela outra, e eles foram junto comigo até onde deu... Choraram um mar todinho e assim eu pude vir nadando. Foi um momento lindo, ser levada assim... E outros queridos se despediam com olhares tão agudos que chega ai. Eu ganhei uma festa surpresa e um quadro com recados, acho que não é possível se sentir mais amada do que ganhando festa surpresa e quadro com recados... Se existiu uma mulher mais amada, ela certamente sufocou e morreu. As despedidas tem essa potência de elevar tudo ao máximo, todos são tão delicados e os defeitos e mortes eminentes se dissolvem pela promessa de um cotidiano novo.
Então, eu decidi vir para São Paulo. Beijei primeiro meus amigos, depois o mar, beijei meu pai, minha irmã, beijei Marina que fez questão de me levar no aeroporto...  Antes de entrar na cidade me deparei com um extenso corredor, no final a placa: Bem Vinda a São Paulo! Todos são tão delicados! ... De um lado, todos os professores pelos quais eu fui mortalmente apaixonada e Vitória ao lado de cada um deles, dizendo que eu já tenho mais de 20 e o papel de ninfeta vai perdendo um pouco o sentido. Do outro, todas as mulheres incríveis que me inspiram força e coragem, dizendo: REAJA!... Eu amarro o cabelo, medito sobre alguma bobagem e atravesso o corredor enquanto cada mulher e cada professor bate em mim com um pedacinho de madeira... Grito, quase desisto, passo arnica nos hematomas.
Então, eu decidi vir para São Paulo. Pedi licença para Todos Os Santos, tracei mil metas na beira da praia, terminei namoro e amarrei meu umbigo numa árvore centenária do Campo Grande. Jurei de pé junto que amor mesmo só pela Bahia, o resto é passagem... Arrumei a mala como uma fugitiva: trouxe livros que eu não vou ler, um excesso de caderninhos em branco e esmaltes fora da valide. Rezo todo dia com medo do frio, implorando que os casacos cumpram a sua promessa.
Então, eu decidi sair de Salvador. Na verdade, me colocaram pra fora de lá...  Afetivamente a coisa toda foi ficando nociva – Meu pai isso, o trabalho aquilo, o dinheiro que não vem, os assuntos que se esgotam, a agonia mesmo de ter vinte e poucos anos, dá uma coceira! ... E nunca me leram baiana! baiana branca é um desapontamento total de expectativas e coleção extensa de privilégios.... Gringa, gringa, gringa, gringa... Não pertenço ao lugar que eu pertenço. Aí você tenta, estuda, escuta, experiencia uma bahia menos branca, mas não adianta, vão lhe amarrar fitinha do Bonfim até o talo. As ruas de Salvador sempre me corrigiam, me botavam atenta e deliciada com o cheiro de dendê ao descer a Av. Sete mais ou menos as cinco da tarde.
Então, eu decidi sair de Salvador. Descobri que sou nordestina,  de um nordeste burro que não diferencia Bahia, Ceará, Alagoas, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe, Paraíba... É tudo nordeste, meu. Mas sinto um certo conforto de não ser daqui... Sou bem branquinha e artista, me misturo bem... Mas é só abrir a boca: nordestina, nordestina, nordestina, nordestina... graças a deus! 
Então, eu decidi sair de Salvador. E me vi completamente sozinha numa cidade linda que é São Paulo... Esse começo é carente de intimidade, excessivo em saudade. Eu sinto saudade de Salvador. Entendi finalmente o que é ser de algum lugar, saindo. 

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Catigarragafum

, Queria te dar um beijo, mas só tinha pão-com-manteiga... Depois que entendi que o beijo não vem da boca, me preocupo com a respiração de cada objeto do ambiente... Inclusive do pão de forma que queimava na torradeira enquanto eu pensava no futuro beijo (Era a parte da casca, aquela eternamente rejeitada, que protege os outros pães, por isso não me preocupei muito). Te olhei com olhos idiotas, queria um olhar de ressaca, ou algo mais interessante, mas te ofereci meus cotidianos olhos idiotas
 - O pão tá queimando – Disse fingindo estar distraída...
Você não ouviu.. Ou se ouviu não deu importância... Tanto faz o computador, a televisão, o jornal das sete, o olhar vago... Existiam eternos silêncios em tudo que a gente dizia.
Deixei o pão queimar mais, quem sabe o cheiro não te incomodava e rompia aquela estranha paz... Quantos outros pães seriam brutalmente tostados até que algum de nós finalmente dissesse algo?
O cheiro e a fumaça não responderam a minha pergunta.
Encarei a torradeira – Estúpida, vermelha – Era como se somente ela compartilhasse comigo o entendimento de que algo estava errado... A torradeira soltando fumaça era a prova definitiva que a nossa paz era monstruosa, sufocante e falsa. Estranhamente falsa.
Pensei em arrancar da tomada e atirar a coitada pela janela – Dramático demais – E toda a discussão giraria em torno do meu ato, da minha constante falta de controle e não do verdadeiro problema. O verdadeiro problema: Aquele que precisava ser discutido e que eu não entendia muito bem qual era.
Vermelho, Fumaça, A casca, O silêncio...
Pensei na primeira vez que te vi!
A pulsação do sangue, O cigarro, Os sentimentos e O silêncio... Talvez esse primeiro momento nem tenha sido tão especial, mas hoje, depois da discussão que não tivemos, das desculpas que não pedimos e do beijo que não trocamos, essa intrusa torradeira faz com que não caibam quatro pessoas nessa sala apertada: eu, você, ela e o silêncio.
Coloquei o pão de forma no meu prato...  Um prato incrivelmente branco e um pão incrivelmente preto: Duvidei da minha sanidade mental...  O pão fazia tanto barulho enquanto eu passava manteiga, que achei ser possível acordar toda a vizinhança com aqueles intermináveis croc croc croc.... Olhei pra você, totalmente absorvido por algo que não me interessava, odiei seu cabelo, odiei seu suor de fim de noite, ainda tinha alguma simpatia pelos seus olhos e pela boca... Mas o pão de forma pesava no meu prato...  Pensei na Clarice: Vou jogar o pão pela janela, é isso!  Escondi o pão num guardanapo, me certifiquei de que a torradeira não entregaria meu plano, caminhei até a janela... Me senti patética! Odiei meus olhos, minhas mãos, meus pés, a torradeira e o silêncio... Voltei correndo pra mesa decidida a comer aquele pão de forma queimado... Olhei pro pão, olhei pra você, olhei pro pão, olhei pra você... Até o momento em que comecei a achar vocês dois parecidos: Duvidei da minha sanidade mental... Examinei demoradamente o seu rosto... Traços que já foram familiares, delicadezas que você já me disse... Agora eu tentava comer um pão queimado ao lado de um sujeito estranho. Me dei conta de súbito: estava jantando ao lado de um desconhecido! E se você fosse violento? Se tentasse roubar a minha casa ou pior se levasse a minha torradeira? A minha única cúmplice dessa maluquice cotidiana...  Mas você estava confortável demais pra ser perigoso...
Mordi o pão, como quem se castiga... O amargo preencheu a minha boca... Tentei pensar na Clarice, mas tive vergonha porque ela jamais aprovaria o meu deboche e a minha covardia em comer aquela torrada queimada.
Tentei pensar em bons momentos... Pensei na desigualdade social, no Buda Shakyamuni, na minha mãe... Voltei a pensar na Clarice e tive vergonha... Pensei na minha avó, pensei na Rússia, na Bahia de Guanabara, na marca de cigarro que eu mais gosto... O gosto de queimado era insuportável, achei que fosse chorar... Você me chamaria de louca ou acharia que eu estava na TPM...
Eu amava estar na TPM porque dizia pra mim mesma que toda a falta de nexo que acariciava a minha vida era culpa dela.
Quando não tinha TPM, colocava toda a culpa na torradeira. Não sei quem inventou essa história de que não existem culpados... Se aquele pão com manteiga não fosse tão sufocante enquanto queimava, jamais notaria o quanto não circula ar nessa salinha, o quanto eu não te conheço, o quanto eu odeio esse conjunto de xícaras que combinam com o pires, que repousam tranquilamente em cima de um prato num tamanho ridículo (nem grande o bastante para uma refeição, nem pequeno o suficiente para comportar apenas uma xícara. Cabe nesse prato exatamente uma fatia de pão de forma, por mais sinistro que seja)
Enfiei todo o pão dentro da minha boca... Acolhi a rejeitada fatia-casca-protetora e me senti mais segura, invencível... Aquilo me preenchendo, ocupando a minha boca com uma imensa gula, como um beijo, como um gesto de amor... Aquela fatia de pão queimado que agora era parte de mim, me impedia de dizer qualquer coisa, ela me ensinava o silêncio e se fazia de escudo: estava armada e protegida! Pronta para retomar o poder...
Olhei para a torradeira e senti ternura... Duvidei da minha sanidade mental...
Odiei minha boca, minha língua, minhas mãos, a torradeira e o silêncio.
Agora tinha saliva demais e pão demais e queimado demais e silêncio demais...
Eu quis vomitar!
Aquele estranho bolo de alimento na minha boca! E agora? Eu cuspo ou engulo? Cuspo ou engulo? Clarice, você faria o quê? Eu vou cuspir! Cuspo escondida no guardanapo ou sujo toda a mesa? Depois eu vou ter que limpar... Diminui o meu ato se eu cuspir no guardanapo?  Talvez a redenção seja menor... Se bem que para alguém que está com a boca cheia de pão queimado, qualquer cuspida é válida. Vou cuspir no guardanapo! Mas eu não sou do tipo de mulher que cospe no guardanapo... Sé é pra cuspir vai ser no ventilador! Ou na cara dele ou na torradeira...
Silêncio.
E saliva demais e pão demais e queimado demais... E silêncio demais...
Eu quis chorar!
Cuspi envergonhadamente o pão no pires, não sabia onde colocar aquilo... Cuspi no pires por que ele tinha um tamanho aceitável... E com uma calma que não era minha analisei a mesa do jantar: um total de quatro pratos, dois aceitáveis e dois sem sentido, duas xícaras irritantemente combinadas, três jogos americanos, um pra mim, um pra você e um terceiro que ficava no centro onde estava à torradeira... Granola, suco, talheres, queijo, presunto, requeijão
E eu não tolerei aquilo!
Joguei no chão tudo que estava em cima da mesa. No começo com calma, mas depois chorando como uma novela mexicana... Cada som quebrado, cada estrago feito me acendia e aquecia... Continuei sentada na cadeira, a respiração densa e as lágrimas rápidas.
Você me olhou
Eu gelei
Você me olhou, cúmplice, veio até mim e disse a frase mais reconfortante que já ouvi na vida:
- Eu acho que a gente devia comprar uma sanduicheira...
Riu com carinho, me beijou a testa e foi para o banheiro tomar banho.


Foto de Marina Leão - apresentação no Ato de 4, UFBA

sábado, 3 de outubro de 2015

minha casa

Perco
Ás vezes a chave, frequentemente o interesse, todo dia perco tempo.
perco pares de meia, prazos, guarda chuva, caneta, xuxa de cabelo, etc..
Já perdi uma gata, um namorado e um avô.
A morte deixa uma ausência de outra qualidade, um tipo bem especifico de saudade.

memória do meu avô: a quitanda da infância, as piadas bobas, a caixinha de remédio.
olho verde e óculos grande
somado a uma mania de gostar de mim sem saber porque...
e uma outra personalidade que meu pai recorda com muito orgulho mas que a velhice não me apresentou. 

os meus antepassados pra se qualificarem na categoria de antepassado
vão invariavelmente morrer ou me serão apresentados por fotografias e histórias depois do almoço.
e é um reconhecimento tão estupidamente necessário!
o meu único entendimento possível de casa é a presença daquelas que foram parindo e parindo e parindo, até chegar em mim
o meu único entendimento possível de casa é essa genealogia louca espalhada brasil a fora, até chegar na Bahia
o meu único entendimento possível de casa é o corpo dessa gente toda que vai morrendo-nascendo, até chegar no meu umbigo
e esse umbigo tá amarrado sei lá aonde.
mas o jeito de andar, alguma coisa vesga, alguma coisa troncuda e sardenta
algum tipo grave de subversão, uma mania de índio, de preto e de branco...
isso meu sangue não nega.
E me faz.
tem a música: eu não tenho onde morar,
é por isso que eu moro na areia.
a areia pode ser metáfora pro tempo, pra morte ou pras pedras que desistem e amolecem lentas na beira do mar.

tanto mar, tanto mar, vô.
navegaremos!
morrer é um jeito bem humano de se transformar em deus...

me protege.


terça-feira, 7 de abril de 2015

ROBERTO

Roberto chegava sempre em último lugar.
Desobedecia a velocidade com que o céu trovoa nas noites de muita chuva, é tão rápido que vem antes do som. O tempo dele é outro, de uma lentidão que dá inveja em caramujo.
Mas ele teimava em correr...
Se metia em tudo que era corrida. Uma coleção invisível de medalhas enfeitava sua parede, orgulhava-se secretamente daquela parede lisa. Afinal, a modéstia hoje em dia é raridade...
Roberto era um sujeito reservado. Tinha também predileção por arvores secas, retrato preto-e-branco, violão de 6 cordas e cactos. Tudo que faz a gente lembrar que o tempo é um senhor pançudo e arrogante que as vezes passa pela a gente e nem pergunta como as coisas estão, a família vai bem?, a saúde, a saudade, etc... Nada...
Tudo que lembrava esse senhor ele gostava! Alargava as ventas pra presenteá-las com qualquer coisa que cheirasse a morte, tempo e poeira... Ele achava aquilo tudo tão bonito! Mas achava um pouco inconveniente também.
As vezes era um tormento,  roberto nunca entendeu porque o dia a dia tem tantas particularidades... Era a chave do carro, a carteira, o sapato, o computador, o tabaco, o copo dàgua... Tudo isso tem que estar em perfeita ordem antes de qualquer sujeito que se preze colocar o pé pra fora de casa... Era coisa demais... Miudeza feita de plástico o tempo não permite o acumulo de poeira, simplesmente faz com que se perca. Nada pessoal, perder era responsabilidade total do tempo. Mas roberto corria, corria, corria... ligava pra namorada: “corro demais só pra te ver meu bem” e ela pacientemente esperando que ele chegasse.
Tinha mais essa: A Namorada.
Roberto inventou de gostar de uma moça, que achava que moça tinha que ser toda uma outra coisa, e era uma mulherzinha tão brava que durante a infância chamavam a menina de panela de pressão.. Todo mundo morria de medo que ela estourasse... Roberto não ligava, gostava da velocidade com que ela cozinhava milho e feijão. Era um pouco perigosa, mas o alimento ficava infinitamente mais gostoso. Namorar é acertar os ponteiros. Ponteiros de relógios magnetizados por polos diferentes. Aí a namorada falou, quero que você me de pra mim uma de suas medalhas... Danou-se. Roberto pensou: e agora? Se eu só tenho medalha de último lugar, que não dá nem pra pegar com o olho, como é que eu vou presentar a menina?
Resolveu correr mais uma vez, porque até que ele queria uma medalha de bronze, quem sabe prata... Ouro era brilhante demais... Já tinha o sol que queimava toda manhã, pra quê mais isso? Roberto dizia que a primeira coisa colorida que ele gostou na vida foi A Namorada. Ela ficava toda-toda, se achando um estojo colorido e aquarelavel da faber castell. E ele correu.
Mas correr rápido não combinava com o jeito que o tempo dele escolheu de passar... Antes do juiz dar o tiro de largada disse pra namorada: não se avexe não, que a burrinha da felicidade nunca se atrasa. E ela fingiu que nem ligou, mas por dento ficou toda preocupada da dona felicidade não chegar, ou chegar antes do que roberto e ela ter que ficar sozinha fazendo sala pra uma desconhecida.
Mas foi nesse momento, um desses instantes da vida que bagunça a coisa toda, que o roteirista pensa: é agora que desanda ou que vai! – No meio da corrida, todo mundo indo bem preocupado com o chegar lá, e roberto só indo... Foi no meio da corrida que trocaram o tempo de lugar, que colocaram o começo no fim e o fim no começo, e foi quando todo mundo percebeu que roberto estava na frente a tempos. Ele ficou primeiro preenchido, depois paralisado, aí ele percebeu que os pelos do seu bigode já eram sinal de alguma sabedoria de moleque que ele sempre deixou pra lá...
Sentou pra descansar.
Tava satisfeito, e sem medalha.  Se permitiu um orgulho contido, depois debochou e transformou em bobo da corte o rei que morava em sua barriga.
E Roberto pegou gosto pela distância... Beijou primeiro os homens:  Seu Pai, alguns Amigos, Gilberto Gil (que era seu cantor favorito), depois beijou as mulheres: Sua Mãe, Sua Irmã, suas Tias e Primas, e A Namorada... Beijou todo mundo e partiu.
Correu pela multidão-boiada, caminhando a esmo... Run, run, run... Que são as letras necessárias pra correr em inglês. Se sentia hora o máximo, hora o mínimo, meio homem-menino, meio bobo ou rei... Roberto tinha o pé chato, o que causava uma certa insegurança e instabilidade na hora das corridas, mas deixava o seu pé mais próximo da terra, nutrindo o moço com a força que faz com que a arvore rasgue o chão.
Ele correu pra longe...
A Namorada coitada, só não morre de saudade porque deixou o próprio coração cozinhando na pressão e seguiu estourada... Ela teve que ouvir “Oxe, vai ver que você não gosta dele, se não ia sentir mais saudade” e pensava: Oxe... E gostar dele significa ficar chorando pelos cantos? E cozinhou a sua própria vida, muito convicta de que estavam todos muitíssimo bem, fechando as duas torneirinhas que se alojaram no lugar dos seus olhos.
Roberto não entendeu... Como é que pode a moça parar de chorar tão rápido? E quanto mais ele perguntava, mais e mais ela ficava seca.
O casal se reencontrou com direito a confete, fotografia colorida, beijo de língua, cartão postal, casaco de frio, reconhecimento e vinho barato.  Na outra via: nervosismo, distância, falta de sabedoria sobre aonde colocar as mãos, brigas, palavrão e pontapé. Os sentimentos não ligam pro seu código postal, nem pra data do calendário, muito menos pro tempo. Eles desobedecem regulamentos vários.  Subvertem regras e revolucionam estados.
O amor é um tempo muito torto.
Que permite além de todo aprendizado, a sensação quente de ir ao cinema com Roberto, comprar uma pipoca e repousar a cabeça no ombro dele por 10 minutos (depois desse tempo fica desconfortável e é muito adequado trocar de posição)... E dividir. O filme, a conta, a pipoca, as opiniões, os grilos ...  E dividir de novo: os lugares, as promessas, os projetos, os acordos, o cobertor.
Roberto e a Namorada escreveram na parede do futuro muitas histórias... Em muitas delas A Namorada tem um nome próprio e eles nem estão mais juntos (o que não impede os dois de nada... Pelo contrario, coloca um empurrando o outro pra frente... Já que caranguejo só anda de lado e Roberto corre lento, é mais do que necessário um tiquinho de empurrão)
A Namorada dizia: Roberto, você não tem imaginação pra mudar de mulher!
Mentira. Roberto imaginava tanta coisa que além de escrever umas histórias, transformava a própria vida em telenovela com requintes de suspense policial (o que era bastante criativo e um pouco problemático) E eles seguiam se rescrevendo, mudando umas falas, repensando umas cenas, refazenda.
Depois da lentidão, Roberto aprendeu sobre o silêncio,
resolveu abrir um buraco no meio do peito e preencher o vazio de calmaria... E tem gente que diz, que ás 8 da noite, eu não, Roberto, esvazia o peito, alonga as pernas e corre devagarinho ouvindo o barulho que o vento faz quando passa pelo buraco.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

lugares

dentro: lá onde a gente sabe. 
(ou pelo menos acredita seguramente-cegamente nessa sabedoria)
será que é equilibro? religião? futuros?
...
pura invenção. (mas a ficção é desesperadamente necessária)

fora: um ano que finalmente vai começar! e o ascendente em sagitário que definitivamente não me deixa em paz. O meu estado mais próximo da felicidade/serenidade é com as malas prontas, a rotina em completa esquizofrenia e as minhas questões tão distantes como se não fossem nem minhas!
assim é fácil, sua bandida!
me alugo por temporada. Topa?
Topo! Te esqueço durante todo o verão e alugo seus poros pra dar conta do calor (ou do frio! já que a bandidagem clandestina rolou solta nesse começo de ano)
que preguiça de voltar pra mim. (viajar é legal por isso também! A gente se redimensiona, se acha bobinha e resolve tudo com mais objetividade... A Lara viajada é uma mulher incrível)

A Lara pão-pão e queijo-queijo do dia-dia vive cortando os pulsos com bolacha Maria.
Comida sempre foi uma questão afetiva! Toda uma poética baseada na fatia do pão. (ou pelo menos serviu como ponta pé inicial)
...

A minha ficção:
...

E o desejo. O desejo é um tempo que não se divide em horas, meses, anos. Ele atravessa. só isso.
...

No meio: 

A morte é um rio todo branco
E a minha avó boiando
No sentido oposto da correnteza.
Como se ela desfizesse
O tempo
A dor
E a vida. 


....

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

raul cantando: eu sou um canceriano sem lar

Onde é que eu tô quando me sinto em casa?
Estar em casa é uma sensação que o estomago da gente inventa e conta para todos os outros órgãos que eles já podem relaxar...
Estar em casa é a sensação de pertencimento, de reconhecimento.
E me reconheço nas paredes coloridas pelo meu pai
Nas regras e incensos da minha mãe
Na mania de guardar açúcar e biscoito na geladeira
Ou de beber cerveja e cantar musicas antigas.
Onde é que fica a minha casa?
de uma família que ocupa vários lugares do mapa, saudades geográficas, ligações interurbanas e outras que vão além.
Minha casa é a saudade.
Todo lugar onde estiver a minha bicicleta e Teodoro com seus bigodes
eu chamo de casa.
Minha casa é o olhar sério de marina, a risada de rubeiz, as besteiras que a gente arquiteta desde que todo mundo usava uniforme. Juntos. Numa especie de certeza: Tenho pra onde voltar. Pra quem ligar num momento de grande confusão mental e nenhuma expectativa de resolução.
E ao mesmo tempo não tem ninguém na linha.
Sou só eu do outro lado com medo de me equilibrar na corda bamba.
Onde é que fica a minha casa?
Talvez a porta de entrada seja o meu umbigo, em algum lugar lá dentro, bem fundo, eu encontre.
Ou talvez não seja nada disso.
Não sei, perdi a chave.

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