Minha mãe é uma senhora bem gorda, dos olhos azuis. Ela fica
sentada numa pedra qualquer, lavando os pezinhos na beira do rio... A cada dia,
alguém vem mamar em um dos seus mil peitos. Ela alimenta todo mundo: dá de
comer a crianças feias, a animais selvagens e a adultos arrependidos... Toda
vez que alguém chora, cresce mais um peito no seu corpo redondo e as lágrimas
se transformam no mais nutritivo leite. Até que ela se cansa, mergulha no Rio e
vai embora. Vai embora como se nunca tivesse prometido ficar e chora
arrependida acelerando o curso das aguas. Minha mãe carrega uma culpa que
envenena o leite na mesma proporção em que nutri... Minha mãe sabe todas as
cantigas do mundo e escuto sua voz ecoando sempre que me concentro um pouco.
Meu pai é um frango assado trajando um paletó caro e amarrotado pela viagem... Enquanto galo, reinava absoluto num galinheiro onde as cloacas só expeliam ovos de ouro. Meu pai brigava com pavões, urubus, andorinhas, papagaios, e as galinhas sempre tão alvoraçadas pela eximia exibição de masculinidade. Hoje, velho e viril, caminha na ponte aérea em busca de um sossego que não existe a não ser dentro dele. Sossego esse, facilmente acessível com uma carga horária significativa de terapia. Meu pai sempre precisou de dois frangos: um pra cantar de galo e outro para estar ao meu lado a todo o momento.
Então, eu decidi vir para São Paulo. Minha mãe me segurou por uma mão, meu pai pela outra, e eles foram junto comigo até onde deu... Choraram um mar todinho e assim eu pude vir nadando. Foi um momento lindo, ser levada assim... E outros queridos se despediam com olhares tão agudos que chega ai. Eu ganhei uma festa surpresa e um quadro com recados, acho que não é possível se sentir mais amada do que ganhando festa surpresa e quadro com recados... Se existiu uma mulher mais amada, ela certamente sufocou e morreu. As despedidas tem essa potência de elevar tudo ao máximo, todos são tão delicados e os defeitos e mortes eminentes se dissolvem pela promessa de um cotidiano novo.
Então, eu decidi vir para São Paulo. Beijei primeiro meus amigos, depois o mar, beijei meu pai, minha irmã, beijei Marina que fez questão de me levar no aeroporto... Antes de entrar na cidade me deparei com um extenso corredor, no final a placa: Bem Vinda a São Paulo! Todos são tão delicados! ... De um lado, todos os professores pelos quais eu fui mortalmente apaixonada e Vitória ao lado de cada um deles, dizendo que eu já tenho mais de 20 e o papel de ninfeta vai perdendo um pouco o sentido. Do outro, todas as mulheres incríveis que me inspiram força e coragem, dizendo: REAJA!... Eu amarro o cabelo, medito sobre alguma bobagem e atravesso o corredor enquanto cada mulher e cada professor bate em mim com um pedacinho de madeira... Grito, quase desisto, passo arnica nos hematomas.
Então, eu decidi vir para São Paulo. Pedi licença para Todos Os Santos, tracei mil metas na beira da praia, terminei namoro e amarrei meu umbigo numa árvore centenária do Campo Grande. Jurei de pé junto que amor mesmo só pela Bahia, o resto é passagem... Arrumei a mala como uma fugitiva: trouxe livros que eu não vou ler, um excesso de caderninhos em branco e esmaltes fora da valide. Rezo todo dia com medo do frio, implorando que os casacos cumpram a sua promessa.
Então, eu decidi sair de Salvador. Na verdade, me colocaram pra fora de lá... Afetivamente a coisa toda foi ficando nociva – Meu pai isso, o trabalho aquilo, o dinheiro que não vem, os assuntos que se esgotam, a agonia mesmo de ter vinte e poucos anos, dá uma coceira! ... E nunca me leram baiana! baiana branca é um desapontamento total de expectativas e coleção extensa de privilégios.... Gringa, gringa, gringa, gringa... Não pertenço ao lugar que eu pertenço. Aí você tenta, estuda, escuta, experiencia uma bahia menos branca, mas não adianta, vão lhe amarrar fitinha do Bonfim até o talo. As ruas de Salvador sempre me corrigiam, me botavam atenta e deliciada com o cheiro de dendê ao descer a Av. Sete mais ou menos as cinco da tarde.
Então, eu decidi sair de Salvador. Descobri que sou nordestina, de um nordeste burro que não diferencia Bahia, Ceará, Alagoas, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe, Paraíba... É tudo nordeste, meu. Mas sinto um certo conforto de não ser daqui... Sou bem branquinha e artista, me misturo bem... Mas é só abrir a boca: nordestina, nordestina, nordestina, nordestina... graças a deus!
Então, eu decidi sair de Salvador. E me vi completamente sozinha numa cidade linda que é São Paulo... Esse começo é carente de intimidade, excessivo em saudade. Eu sinto saudade de Salvador. Entendi finalmente o que é ser de algum lugar, saindo.
Meu pai é um frango assado trajando um paletó caro e amarrotado pela viagem... Enquanto galo, reinava absoluto num galinheiro onde as cloacas só expeliam ovos de ouro. Meu pai brigava com pavões, urubus, andorinhas, papagaios, e as galinhas sempre tão alvoraçadas pela eximia exibição de masculinidade. Hoje, velho e viril, caminha na ponte aérea em busca de um sossego que não existe a não ser dentro dele. Sossego esse, facilmente acessível com uma carga horária significativa de terapia. Meu pai sempre precisou de dois frangos: um pra cantar de galo e outro para estar ao meu lado a todo o momento.
Então, eu decidi vir para São Paulo. Minha mãe me segurou por uma mão, meu pai pela outra, e eles foram junto comigo até onde deu... Choraram um mar todinho e assim eu pude vir nadando. Foi um momento lindo, ser levada assim... E outros queridos se despediam com olhares tão agudos que chega ai. Eu ganhei uma festa surpresa e um quadro com recados, acho que não é possível se sentir mais amada do que ganhando festa surpresa e quadro com recados... Se existiu uma mulher mais amada, ela certamente sufocou e morreu. As despedidas tem essa potência de elevar tudo ao máximo, todos são tão delicados e os defeitos e mortes eminentes se dissolvem pela promessa de um cotidiano novo.
Então, eu decidi vir para São Paulo. Beijei primeiro meus amigos, depois o mar, beijei meu pai, minha irmã, beijei Marina que fez questão de me levar no aeroporto... Antes de entrar na cidade me deparei com um extenso corredor, no final a placa: Bem Vinda a São Paulo! Todos são tão delicados! ... De um lado, todos os professores pelos quais eu fui mortalmente apaixonada e Vitória ao lado de cada um deles, dizendo que eu já tenho mais de 20 e o papel de ninfeta vai perdendo um pouco o sentido. Do outro, todas as mulheres incríveis que me inspiram força e coragem, dizendo: REAJA!... Eu amarro o cabelo, medito sobre alguma bobagem e atravesso o corredor enquanto cada mulher e cada professor bate em mim com um pedacinho de madeira... Grito, quase desisto, passo arnica nos hematomas.
Então, eu decidi vir para São Paulo. Pedi licença para Todos Os Santos, tracei mil metas na beira da praia, terminei namoro e amarrei meu umbigo numa árvore centenária do Campo Grande. Jurei de pé junto que amor mesmo só pela Bahia, o resto é passagem... Arrumei a mala como uma fugitiva: trouxe livros que eu não vou ler, um excesso de caderninhos em branco e esmaltes fora da valide. Rezo todo dia com medo do frio, implorando que os casacos cumpram a sua promessa.
Então, eu decidi sair de Salvador. Na verdade, me colocaram pra fora de lá... Afetivamente a coisa toda foi ficando nociva – Meu pai isso, o trabalho aquilo, o dinheiro que não vem, os assuntos que se esgotam, a agonia mesmo de ter vinte e poucos anos, dá uma coceira! ... E nunca me leram baiana! baiana branca é um desapontamento total de expectativas e coleção extensa de privilégios.... Gringa, gringa, gringa, gringa... Não pertenço ao lugar que eu pertenço. Aí você tenta, estuda, escuta, experiencia uma bahia menos branca, mas não adianta, vão lhe amarrar fitinha do Bonfim até o talo. As ruas de Salvador sempre me corrigiam, me botavam atenta e deliciada com o cheiro de dendê ao descer a Av. Sete mais ou menos as cinco da tarde.
Então, eu decidi sair de Salvador. Descobri que sou nordestina, de um nordeste burro que não diferencia Bahia, Ceará, Alagoas, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe, Paraíba... É tudo nordeste, meu. Mas sinto um certo conforto de não ser daqui... Sou bem branquinha e artista, me misturo bem... Mas é só abrir a boca: nordestina, nordestina, nordestina, nordestina... graças a deus!
Então, eu decidi sair de Salvador. E me vi completamente sozinha numa cidade linda que é São Paulo... Esse começo é carente de intimidade, excessivo em saudade. Eu sinto saudade de Salvador. Entendi finalmente o que é ser de algum lugar, saindo.
Então, você decidiu sair de Salvador e os caminhos entre o canela e a barra se pintaram de saudade imediata. Mas, como tu tem uma verdadeira vocação para o drama, tudo isso também se transforma em mais amor e história.
ResponderExcluir