Roberto
chegava sempre em último lugar.
Desobedecia a velocidade com que o céu trovoa nas noites de muita chuva, é tão
rápido que vem antes do som. O tempo dele é outro, de uma lentidão que dá
inveja em caramujo.
Mas ele teimava em correr...
Se metia em tudo que era corrida. Uma coleção invisível de medalhas enfeitava
sua parede, orgulhava-se secretamente daquela parede lisa. Afinal, a modéstia hoje
em dia é raridade...
Roberto era um sujeito reservado. Tinha também predileção por arvores secas,
retrato preto-e-branco, violão de 6 cordas e cactos. Tudo que faz a gente
lembrar que o tempo é um senhor pançudo e arrogante que as vezes passa pela a
gente e nem pergunta como as coisas estão, a família vai bem?, a saúde, a saudade,
etc... Nada...
Tudo que lembrava esse senhor ele gostava! Alargava as ventas
pra presenteá-las com qualquer coisa que cheirasse a morte, tempo e poeira...
Ele achava aquilo tudo tão bonito! Mas achava um pouco inconveniente também.
As vezes era um tormento, roberto nunca
entendeu porque o dia a dia tem tantas particularidades... Era a chave do
carro, a carteira, o sapato, o computador, o tabaco, o copo dàgua... Tudo isso
tem que estar em perfeita ordem antes de qualquer sujeito que se preze
colocar o pé pra fora de casa... Era coisa demais... Miudeza feita de plástico
o tempo não permite o acumulo de poeira, simplesmente faz com que se perca.
Nada pessoal, perder era responsabilidade total do tempo. Mas roberto corria,
corria, corria... ligava pra namorada: “corro demais só pra te ver meu bem” e
ela pacientemente esperando que ele chegasse.
Tinha mais essa: A Namorada.
Roberto inventou de gostar de uma moça, que achava que moça tinha que ser toda
uma outra coisa, e era uma mulherzinha tão brava que durante a infância
chamavam a menina de panela de pressão.. Todo mundo morria de medo que ela
estourasse... Roberto não ligava, gostava da velocidade com que ela cozinhava
milho e feijão. Era um pouco perigosa, mas o alimento ficava infinitamente mais
gostoso. Namorar é acertar os ponteiros. Ponteiros de relógios magnetizados por
polos diferentes. Aí a namorada falou, quero que você me de pra mim uma de suas
medalhas... Danou-se. Roberto pensou: e agora? Se eu só tenho medalha de último
lugar, que não dá nem pra pegar com o olho, como é que eu vou presentar a
menina?
Resolveu correr mais uma vez, porque até que ele queria uma medalha de bronze,
quem sabe prata... Ouro era brilhante demais... Já tinha o sol que queimava
toda manhã, pra quê mais isso? Roberto dizia que a primeira coisa colorida que
ele gostou na vida foi A Namorada. Ela ficava toda-toda, se achando um estojo
colorido e aquarelavel da faber castell. E ele correu.
Mas correr rápido não combinava com o jeito que o tempo dele escolheu de
passar... Antes do juiz dar o tiro de largada disse pra namorada: não se avexe
não, que a burrinha da felicidade nunca se atrasa. E ela fingiu que nem ligou,
mas por dento ficou toda preocupada da dona felicidade não chegar, ou chegar
antes do que roberto e ela ter que ficar sozinha fazendo sala pra uma desconhecida.
Mas foi nesse momento, um desses instantes da vida que bagunça a coisa toda,
que o roteirista pensa: é agora que desanda ou que vai! – No meio da corrida,
todo mundo indo bem preocupado com o chegar lá, e roberto só indo... Foi no
meio da corrida que trocaram o tempo de lugar, que colocaram o começo no fim e
o fim no começo, e foi quando todo mundo percebeu que roberto estava na frente
a tempos. Ele ficou primeiro preenchido, depois paralisado, aí ele percebeu que
os pelos do seu bigode já eram sinal de alguma sabedoria de moleque que ele
sempre deixou pra lá...
Sentou pra descansar.
Tava satisfeito, e sem medalha. Se
permitiu um orgulho contido, depois debochou e transformou em bobo da corte o
rei que morava em sua barriga.
E Roberto pegou gosto pela distância... Beijou primeiro os homens: Seu Pai, alguns Amigos, Gilberto Gil (que era
seu cantor favorito), depois beijou as mulheres: Sua Mãe, Sua Irmã, suas Tias e
Primas, e A Namorada... Beijou todo mundo e partiu.
Correu pela multidão-boiada, caminhando a esmo... Run, run, run... Que são as
letras necessárias pra correr em inglês. Se sentia hora o máximo, hora o mínimo,
meio homem-menino, meio bobo ou rei... Roberto tinha o pé chato, o que causava
uma certa insegurança e instabilidade na hora das corridas, mas deixava o seu
pé mais próximo da terra, nutrindo o moço com a força que faz com que a arvore
rasgue o chão.
Ele correu pra longe...
A Namorada coitada, só não morre de saudade porque deixou o próprio coração
cozinhando na pressão e seguiu estourada... Ela teve que ouvir “Oxe, vai ver
que você não gosta dele, se não ia sentir mais saudade” e pensava: Oxe... E
gostar dele significa ficar chorando pelos cantos? E cozinhou a sua própria vida,
muito convicta de que estavam todos muitíssimo bem, fechando as duas
torneirinhas que se alojaram no lugar dos seus olhos.
Roberto não entendeu... Como é que pode a moça parar de chorar tão rápido? E
quanto mais ele perguntava, mais e mais ela ficava seca.
O casal se reencontrou com direito a confete, fotografia colorida, beijo de
língua, cartão postal, casaco de frio, reconhecimento e vinho barato. Na outra via: nervosismo, distância, falta de
sabedoria sobre aonde colocar as mãos, brigas, palavrão e pontapé. Os
sentimentos não ligam pro seu código postal, nem pra data do calendário, muito
menos pro tempo. Eles desobedecem regulamentos vários. Subvertem regras e revolucionam estados.
O amor é um tempo muito torto.
Que permite além de todo aprendizado, a sensação quente de ir ao cinema com
Roberto, comprar uma pipoca e repousar a cabeça no ombro dele por 10 minutos
(depois desse tempo fica desconfortável e é muito adequado trocar de
posição)... E dividir. O filme, a conta, a pipoca, as opiniões, os grilos
... E dividir de novo: os lugares, as
promessas, os projetos, os acordos, o cobertor.
Roberto e a Namorada escreveram na parede do futuro muitas histórias... Em
muitas delas A Namorada tem um nome próprio e eles nem estão mais juntos (o que
não impede os dois de nada... Pelo contrario, coloca um empurrando o outro pra frente...
Já que caranguejo só anda de lado e Roberto corre lento, é mais do que necessário
um tiquinho de empurrão)
A Namorada dizia: Roberto, você não tem imaginação pra mudar de mulher!
Mentira. Roberto imaginava tanta coisa que além de escrever umas histórias,
transformava a própria vida em telenovela com requintes de suspense policial (o
que era bastante criativo e um pouco problemático) E eles seguiam se
rescrevendo, mudando umas falas, repensando umas cenas, refazenda.
Depois da lentidão, Roberto aprendeu sobre o silêncio,
resolveu abrir um buraco no meio do peito e preencher o vazio de calmaria... E
tem gente que diz, que ás 8 da noite, eu não, Roberto, esvazia o peito, alonga
as pernas e corre devagarinho ouvindo o barulho que o vento faz quando passa
pelo buraco.