terça-feira, 20 de setembro de 2016

Catigarragafum

, Queria te dar um beijo, mas só tinha pão-com-manteiga... Depois que entendi que o beijo não vem da boca, me preocupo com a respiração de cada objeto do ambiente... Inclusive do pão de forma que queimava na torradeira enquanto eu pensava no futuro beijo (Era a parte da casca, aquela eternamente rejeitada, que protege os outros pães, por isso não me preocupei muito). Te olhei com olhos idiotas, queria um olhar de ressaca, ou algo mais interessante, mas te ofereci meus cotidianos olhos idiotas
 - O pão tá queimando – Disse fingindo estar distraída...
Você não ouviu.. Ou se ouviu não deu importância... Tanto faz o computador, a televisão, o jornal das sete, o olhar vago... Existiam eternos silêncios em tudo que a gente dizia.
Deixei o pão queimar mais, quem sabe o cheiro não te incomodava e rompia aquela estranha paz... Quantos outros pães seriam brutalmente tostados até que algum de nós finalmente dissesse algo?
O cheiro e a fumaça não responderam a minha pergunta.
Encarei a torradeira – Estúpida, vermelha – Era como se somente ela compartilhasse comigo o entendimento de que algo estava errado... A torradeira soltando fumaça era a prova definitiva que a nossa paz era monstruosa, sufocante e falsa. Estranhamente falsa.
Pensei em arrancar da tomada e atirar a coitada pela janela – Dramático demais – E toda a discussão giraria em torno do meu ato, da minha constante falta de controle e não do verdadeiro problema. O verdadeiro problema: Aquele que precisava ser discutido e que eu não entendia muito bem qual era.
Vermelho, Fumaça, A casca, O silêncio...
Pensei na primeira vez que te vi!
A pulsação do sangue, O cigarro, Os sentimentos e O silêncio... Talvez esse primeiro momento nem tenha sido tão especial, mas hoje, depois da discussão que não tivemos, das desculpas que não pedimos e do beijo que não trocamos, essa intrusa torradeira faz com que não caibam quatro pessoas nessa sala apertada: eu, você, ela e o silêncio.
Coloquei o pão de forma no meu prato...  Um prato incrivelmente branco e um pão incrivelmente preto: Duvidei da minha sanidade mental...  O pão fazia tanto barulho enquanto eu passava manteiga, que achei ser possível acordar toda a vizinhança com aqueles intermináveis croc croc croc.... Olhei pra você, totalmente absorvido por algo que não me interessava, odiei seu cabelo, odiei seu suor de fim de noite, ainda tinha alguma simpatia pelos seus olhos e pela boca... Mas o pão de forma pesava no meu prato...  Pensei na Clarice: Vou jogar o pão pela janela, é isso!  Escondi o pão num guardanapo, me certifiquei de que a torradeira não entregaria meu plano, caminhei até a janela... Me senti patética! Odiei meus olhos, minhas mãos, meus pés, a torradeira e o silêncio... Voltei correndo pra mesa decidida a comer aquele pão de forma queimado... Olhei pro pão, olhei pra você, olhei pro pão, olhei pra você... Até o momento em que comecei a achar vocês dois parecidos: Duvidei da minha sanidade mental... Examinei demoradamente o seu rosto... Traços que já foram familiares, delicadezas que você já me disse... Agora eu tentava comer um pão queimado ao lado de um sujeito estranho. Me dei conta de súbito: estava jantando ao lado de um desconhecido! E se você fosse violento? Se tentasse roubar a minha casa ou pior se levasse a minha torradeira? A minha única cúmplice dessa maluquice cotidiana...  Mas você estava confortável demais pra ser perigoso...
Mordi o pão, como quem se castiga... O amargo preencheu a minha boca... Tentei pensar na Clarice, mas tive vergonha porque ela jamais aprovaria o meu deboche e a minha covardia em comer aquela torrada queimada.
Tentei pensar em bons momentos... Pensei na desigualdade social, no Buda Shakyamuni, na minha mãe... Voltei a pensar na Clarice e tive vergonha... Pensei na minha avó, pensei na Rússia, na Bahia de Guanabara, na marca de cigarro que eu mais gosto... O gosto de queimado era insuportável, achei que fosse chorar... Você me chamaria de louca ou acharia que eu estava na TPM...
Eu amava estar na TPM porque dizia pra mim mesma que toda a falta de nexo que acariciava a minha vida era culpa dela.
Quando não tinha TPM, colocava toda a culpa na torradeira. Não sei quem inventou essa história de que não existem culpados... Se aquele pão com manteiga não fosse tão sufocante enquanto queimava, jamais notaria o quanto não circula ar nessa salinha, o quanto eu não te conheço, o quanto eu odeio esse conjunto de xícaras que combinam com o pires, que repousam tranquilamente em cima de um prato num tamanho ridículo (nem grande o bastante para uma refeição, nem pequeno o suficiente para comportar apenas uma xícara. Cabe nesse prato exatamente uma fatia de pão de forma, por mais sinistro que seja)
Enfiei todo o pão dentro da minha boca... Acolhi a rejeitada fatia-casca-protetora e me senti mais segura, invencível... Aquilo me preenchendo, ocupando a minha boca com uma imensa gula, como um beijo, como um gesto de amor... Aquela fatia de pão queimado que agora era parte de mim, me impedia de dizer qualquer coisa, ela me ensinava o silêncio e se fazia de escudo: estava armada e protegida! Pronta para retomar o poder...
Olhei para a torradeira e senti ternura... Duvidei da minha sanidade mental...
Odiei minha boca, minha língua, minhas mãos, a torradeira e o silêncio.
Agora tinha saliva demais e pão demais e queimado demais e silêncio demais...
Eu quis vomitar!
Aquele estranho bolo de alimento na minha boca! E agora? Eu cuspo ou engulo? Cuspo ou engulo? Clarice, você faria o quê? Eu vou cuspir! Cuspo escondida no guardanapo ou sujo toda a mesa? Depois eu vou ter que limpar... Diminui o meu ato se eu cuspir no guardanapo?  Talvez a redenção seja menor... Se bem que para alguém que está com a boca cheia de pão queimado, qualquer cuspida é válida. Vou cuspir no guardanapo! Mas eu não sou do tipo de mulher que cospe no guardanapo... Sé é pra cuspir vai ser no ventilador! Ou na cara dele ou na torradeira...
Silêncio.
E saliva demais e pão demais e queimado demais... E silêncio demais...
Eu quis chorar!
Cuspi envergonhadamente o pão no pires, não sabia onde colocar aquilo... Cuspi no pires por que ele tinha um tamanho aceitável... E com uma calma que não era minha analisei a mesa do jantar: um total de quatro pratos, dois aceitáveis e dois sem sentido, duas xícaras irritantemente combinadas, três jogos americanos, um pra mim, um pra você e um terceiro que ficava no centro onde estava à torradeira... Granola, suco, talheres, queijo, presunto, requeijão
E eu não tolerei aquilo!
Joguei no chão tudo que estava em cima da mesa. No começo com calma, mas depois chorando como uma novela mexicana... Cada som quebrado, cada estrago feito me acendia e aquecia... Continuei sentada na cadeira, a respiração densa e as lágrimas rápidas.
Você me olhou
Eu gelei
Você me olhou, cúmplice, veio até mim e disse a frase mais reconfortante que já ouvi na vida:
- Eu acho que a gente devia comprar uma sanduicheira...
Riu com carinho, me beijou a testa e foi para o banheiro tomar banho.


Foto de Marina Leão - apresentação no Ato de 4, UFBA

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