Ela
atravessa um longo corredor adornado por luzes brancas, ecológicas.
toc,toc,toc,toc
tamanquinhos tão estúpidos quanto a necessidade de usar onomatopeias, barulho que
ecoa, som ritmado, casado com o pulso do seu coração
tum, tum, tum, tum...
fluxo sanguíneo, talvez um pouco de suor escorrendo pela testa, órgãos, pelos,
secreções variadas - tudo tentando
mantê-la coesa num ballet vigoroso e rodopiante, limitada ao contorno do seu
corpo.
Ela atravessa um longo corredor adornado por luzes brancas, ecológicas.
Novo tempo de um futuro inevitável, dois e mil e mais algumas centenas:
superou-se a terceira guerra, pouca água, muito plástico, navegações espaciais
acessíveis à classe média (principalmente acumulando milhagens)... Novo tempo!
Existe um procedimento bem caro, mas já possível de realizar pelo SUS:
ARMAMENTO ÍNTIMO.
Mulheres podem instalar no canal vaginal os seguintes itens: pistolas,
escopetas, fuzis, espingardas (aconselhada apenas a mulheres que tiveram fácil
adaptação ao DIU), carabinas, rifles, submetralhadoras ou um lançador com mini
adagas afiadas (indicado paras as mocinhas que ainda não tiveram sua primeira
menstruação) - Tudo hipoalergênico e disponível também nas versões rosa, roxo e
gliterizado.
Georgia atravessa um longo corredor adornado por luzes brancas, ecológicas.
toc, toc, toc, toc
ainda adaptando-se ao processo, mas ansiosa para agir em legitima defesa. Ainda
adaptando-se ao novo peso, mas driblando o medo de que ao primeiro espirro a
pistola escorregue pro chão.
Tamanquinhos ritmados, certeiros em caminhar tranquilamente até a sua casa,
mesmo que tarde da noite... equilibrando-se por entre as pedras da calçada,
Georgia tal qual um felino grande e caçador, faz o seu trajeto. A rua
completamente vazia, a pistola em descanso, os dedinhos ansiosos que procuram a
chave do portão na bolsa. Deu tudo certo, ufa.
Dorme-acorda-calcula contas-toma banho-organiza minimamente a vida ou a
agenda... Café preto que se traveste de incenso e perfuma tudo tudo, Georgia
prontamente caminha até a padaria pra cumprir com dignidade esse ritual
repetitivo que é acordar todas as manhãs. Chinelinhos que se arrastam
shulep shulep shulep....
A padaria fica a três quadras
shulep shulep shulep...
Eis que uma Boca babada e gorda: bom dia, princesa (som de sucção)
Georgia interrompe seu caminho
- Será que é a hora?... Antes de optar
pelo armamento, tomou aulas de Muai thai e ioga, grande controle
respiratório-espiritual.... Georgia esvazia completamente o pulmão, retoma seu
caminho e o seu shulep-shulep
A Boca insiste: gosssssssssssssssssssssssstosa
quase que em câmera lenta e completamente consciente de seus direitos, Georgia
deixa a calça do pijama escorregar até os joelhos, pressiona levemente seu
clitóris por cima da calcinha bege com flores roxas
POW
um disparo que acerta por entre os olhos em cima da boca insistente, tiro
cósmico perfura o terceiro olho daquele homem que agora caía no chão como uma
fruta bem podre. Poça de sangue se forma na calçada.
Georgia suspende a calça e segue...
shulep shulep shulep...
Sem grandes percalços na padaria, pão costuma apaziguar os ânimos... Tudo se
resolveu com um calculado tiro de raspão num sujeito que a encarava
pressionando os olhinhos como num convite que só se pode recusar...
Georgia ainda tentava com os homens, namorou após o armamento 4 beldades
1 – Jhoni Bravo - adoravelmente estupido e musculoso, encarregava-se de todas as funções braçais,
tais como: abrir potes, montar estantes, carregar bujão de gás... Além disso
ele gostava de futebol, pornografia,
carne mal passada e UFC.. Maravilhosamente masculino, dispunha de uma
violência tão óbvia, que na primeira sentença começada em “mulher que não se dá
ao respeito...” ou “eu acho que o aborto é....” ou ainda “mulher minha não...”
recebeu delicadamente um tiro em cada joelho e depois de muito chorar e
implorar para que Georgia não compartilhasse o vídeo que ela estava fazendo,
morreu de susto mesmo quando ameaçado pela penetração de mais uma bala
2 – Don Juan - fazia o tipo boa pinta, tinha um sedutor sotaque , adepto do
poliamor e da culinária vegana. Sempre comparava Georgia com outras mulheres,
dissolvendo a autoestima da nossa heroína. Ele se dizia um amante da figura da
feminina, principalmente da figura que o servia. Georgia era responsável pela
organização da casa, da comida, dos futuros, enquanto Don Juan não lavava nem a
sua própria cueca, ao se dar conta, meteu-lhe um tiro bem no meio do coração,
colorindo o chão em inúmeros tons de vermelho... Sujeira essa, feita pelo
sangue, que Georgia se recusou a limpar.
3 – Sabichão – politicamente engajado, carreira acadêmica, teorias belíssimas
sobre todas as coisas, que se desmanchavam no ar quando questionavam o seu
próprio comportamento. Sabichão falava com maestria e falava muito, sempre
interrompendo, ponderando e ajudando Georgia... Inclusive sobre feminismo
Sabichão sabia mais, óbvio... Então, Georgia se viu como tanto a olharam: louca
demais, sensível demais, não podia se deparar com um copo d’agua dando sopa que
seu impulso primeiro e mais primitivo era de fazer uma tempestade... Até que
ele deixou escapar, foi por uma brecha mínima, um bom mocismo misógino e
autoritário: “eu não vou permitir que você use o feminismo dessa forma só pra
ganhar a discussão” POOOOOOOOOOOOOOOW! Nessa reprodução cafona de poder... E
pra surpresa geral, Sabichão caiu morto no chão, mas dentro do seu corpo não
circulava uma gota de sangue.
4 – Poetinha – um fofo! Artista libertário, homem sensível, fotos abstratas no
Instagram. Gostava do bar mais alternativo, da música mais underground, do
filme mais deprimido. Poetinha tinha uma sexualidade difusa, transcendental e
liquida. Durante o sexo chamava Georgia de minha musa e escrevia poeminhas de
amor e gozo pelos corpos que se conectavam na cama. Mas ainda assim pra ele o
sexo começava com a penetração e terminava quando ele gozava, fora isso tinha
em seu repertório de “preliminares”: um oral bem meia boca, de quem faz tudo
rápido demais e uma unha comprida pra tocar violão que só desgraçava as
tentativas. Georgia poupou a munição de sua pistola, tirou poetinha do pedestal
e disse: você é um artista de merda. Pronto. Ele chorou tanto que se engasgou e
morreu.
Georgia ainda tentava com os homens, mas isso lhe custava muita energia. E essa
energia gasta precisava ser levada em conta, quem sabe reduzida do seu imposto
ou algo assim. A principio ela anotava a quantidade de mortos num caderninho,
depois a coisa tomou um certo automatismo. Georgia passou a ser respeitada nos
lugares que frequentava, ocupava a rua sem maiores preocupações e a noticia
correu... Correu rápida e urgente, na mesma proporção em que outras mulheres
precisavam dessa autorização do Estado pra disparar uns tirinhos. Surgiam as
mais variadas denúncias, os mais variados relatos de violência, os machismos em
suas tantas caras e Georgia impávida e viril pressionava o seu clitóris com
muito carinho e precisão.
POW
pof POW pof POW pof SOC POW pof TUM POW pof !!!
Um cotidiano banhado de sangue, clitóris e resoluções...
Tudo somado a uma solidão que sei lá como se cura. Até que:
Óóóóóóóóóóóóóóóóóóóó (som de algo divino)
Georgia conheceu outras mulheres que também andavam armadas, mulheres que
também optaram por defender-se... Eram tantas bocas lindas articulando histórias,
que poderiam ter saído de qualquer outra boca presente naquele ambiente. Mulher
quando fala dá beijos longuíssimos de uma compreensão que ultrapassa... É uma alcateia,
um cardume, uma matilha, uma manada, um bando, um rebanho, uma matula, uma ninhada,
uma quadrilha, um ramalhete, uma corja, uma choldra, uma horda uma caravana, uma
cambada, uma frota, uma legião, uma constelação, um coro, uma tropa, uma
gangue... Multidão!
A armada das armadas, com direito a uniforme de super heroína: debateram sobre
o couro, flertou-se com a possibilidade da lycra, baniram o jeans e os super
decotes assim como o maiô e a saia plissada... Era preciso proteção e
praticidade nesse uniforme, o desconforto fashion fica pra mais tarde. Optaram por uma espécie de macacão feito de helanquinha
, com um recorte vazado na região da vagina para facilitar o tiroteio, zíper
nos seios para as heroínas que amamentam, velcro por entre as coxas pra agilizar a fila do
xixi e não molhar o uniforme, mais os adereços opcionais – ombreira, gola rolê,
ou estampa de animal print. Criaram também um símbolo possível de se projetar
no céu: Um triângulo vermelho apontado pra baixo, num fundo branco, com os
seguintes escritos nas laterais “Libertas quae sera tamen”
Tuf Tuf Tuf Tuf Tuf Tuf Tuf....
Soavam os coturnos da armada quando corriam pela rua, ou pulavam de poste em
poste a cada chamado desenhado no céu. Era uma avalanche, uma espécie de
tsunami violenta como só a água sabe ser e ensinar. Envenenou-se
a própria gramática, toda vez que as palavras nojo e vagina estavam
concordando na mesma sentença o cidadão já caía morto no chão. Equiparação,
revolta, revanche, vingança: Um convite bordado com vísceras históricas, um
encontro urgentíssimo no qual ninguém teve a coragem de aparecer.
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