sábado, 3 de outubro de 2015

minha casa

Perco
Ás vezes a chave, frequentemente o interesse, todo dia perco tempo.
perco pares de meia, prazos, guarda chuva, caneta, xuxa de cabelo, etc..
Já perdi uma gata, um namorado e um avô.
A morte deixa uma ausência de outra qualidade, um tipo bem especifico de saudade.

memória do meu avô: a quitanda da infância, as piadas bobas, a caixinha de remédio.
olho verde e óculos grande
somado a uma mania de gostar de mim sem saber porque...
e uma outra personalidade que meu pai recorda com muito orgulho mas que a velhice não me apresentou. 

os meus antepassados pra se qualificarem na categoria de antepassado
vão invariavelmente morrer ou me serão apresentados por fotografias e histórias depois do almoço.
e é um reconhecimento tão estupidamente necessário!
o meu único entendimento possível de casa é a presença daquelas que foram parindo e parindo e parindo, até chegar em mim
o meu único entendimento possível de casa é essa genealogia louca espalhada brasil a fora, até chegar na Bahia
o meu único entendimento possível de casa é o corpo dessa gente toda que vai morrendo-nascendo, até chegar no meu umbigo
e esse umbigo tá amarrado sei lá aonde.
mas o jeito de andar, alguma coisa vesga, alguma coisa troncuda e sardenta
algum tipo grave de subversão, uma mania de índio, de preto e de branco...
isso meu sangue não nega.
E me faz.
tem a música: eu não tenho onde morar,
é por isso que eu moro na areia.
a areia pode ser metáfora pro tempo, pra morte ou pras pedras que desistem e amolecem lentas na beira do mar.

tanto mar, tanto mar, vô.
navegaremos!
morrer é um jeito bem humano de se transformar em deus...

me protege.


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