quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A LAMBEDORA DE LÁGRIMAS


Ela aprendeu a lamber lágrimas com a mãe da sua mãe da sua mãe da sua mãe da sua mãe que tinha uma vizinha, que viu uma moça lambendo lagrima no primeiro cais que construíram no mundo. 
Essa é uma lambeção hereditária!
Que a saliva além colar papel, cola com um tiquinho de cuspe toda uma ordem de comportamentos e regras de como ser.
A vida era danada de ser assim: todo mundo sabia que o pescador tem dois amor
E ela achava muito injusto que só sobrava pra ela o lugar de ela, já que pescador com A no final ninguém nunca ouviu falar e já que ninguém nunca, o certo era passar bem muito do tempo todo repetindo o que o povinho dizia: “Não é lugar de mulher, não é certo! Dona Moral não gosta e vai te dar umas bifas”
Mas ela nem tchun... Comia um pedaço de pão, amarrava os cabelos e ia pro porto, bater na porta da casa dos pescadores... E lá era um negocio tão gostoso! Parecia que a rede de pegar peixe amarrava todo mundo e pegava era de jeito quem se demorasse por ali.
Tinha.um.ritmo.todo.assim.se.qurendo.de.domingo.
Era um calor lento, que escorregava nos movimentos, amaciando os gestos. A única rapidez latente era do dominó, pontinho com pontinho que formavam todo um buracão (era necessário cuidado pra não cair no fosso da briga ou da cerveja)
“Tô batido, tô batido.. é lasquinê”
Ela ficava de butuca, aprendendo a fazer os nós, limpar os peixes, palitar os dentes, até juntar as bolinhas com as bolinhas correspondentes do dominó ela aprendeu...  Mas Dona Moral não deixava, coisa que a gente aprende assim faz a mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da gente se revirar no caixão.
Até tinha um namorado. Que ensinaram pra ela que era ele, que era um, que era forte e ela tinha que ficar esperando ele voltar do mar. Contando os dias com risquinhos na parede, lambendo com gostos as lágrimas que lhe escorriam pela bochecha.
Na espera.
Era injusto de novo! Ele até que era moço bom, tinha um charminho no dente que era meio divididinho no meio, fazendo passar por aquela fresta toda uma imensidão de carinho... Ela gostava dele! E gostava da pescaria! E as grandezas dos gostares não buliam uma na hora, já que gostar mais dele não influenciava em nada o gostar da pescaria e vice e versa, e nada de verso.
E ela na espera...
Que nada.
Foi falar com a mãe d´agua... Funcionava assim: ficava do lado de fora toda uma tropa de homem exercendo toda sua masculinidade e todos os seus saberes de pesca. E dentro: ficava toda confinadinha um monte de mulher, de imagem de yemanjá, costurando na espera todos os seus quereres.. Porque mulher tem que se esforçar pra querer de verdade e poder dizer que quer...
Aí ela acendeu uma vela novinha, ofereceu alfazema, espelho, pente sem pelo... E disse que queria ser pescadora.. Aí ela jura que ouviu a sereia dizendo “Então vá”.
Não deu outra, em dois tempos ela fez uma presepada num barquinho que ela costurou na espera, arregaçou as mangas, enrijeceu os ossos e foi transformar o querer em quero mais.

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