autobiográfico. critica social. papo de jornal, enquanto todo mundo continua se sufocando em busca de oxigênio...
O problema é que a sociedade é muito grande, minha cabecinha não é capaz de dimensionar o mundo - e a fome, a guerra, toda a exploração escrota que existe por aí, vira ninguém!
Quando é muito grande cada um só pensa em se defender (e tem mesmo)
E o mais cruel é que o outro se transforma em algo que não existe: é estatística, é a africa, são os escravos da china, o oriente médio, etc.... Um monte de gente que não existe e enfeita a minha televisão enquanto eu me calo com o arroz e feijão de todo dia...
Minha mãe morrer é um problema
As mulheres cotidianamente mortas-estupradas na africa me deixam triste, mas mesmo triste eu continuo imensamente atarefada..... Como se eu vivesse em apneia.
E confesso, apaticamente burra, tudo que eu possa fazer serve tranquilamente ao sistema! Nem incomoda, é cereja.... Uma salva de palma a todos os semi-deuses que dão o iogurte fora da validade pra empregada, que vão ao super mercado de ecobag, que acham que pobreza é defeito, que não tem preconceitos mas "não precisava ficar se beijando assim em público" ou "vestida assim você tá querendo o quê?"
Eu estava voltando da Av. Sete, leve que nem bolha, imersa na conta do banco, no trabalho da faculdade, no vermelho sangue das minhas unhas recém pintadas (recebi finalmente alguma grana e pintei, vitoriosa, as unhas num salão no Garcia)
E veio a policia parecendo bicho, batendo num menino preto, magro, alto, de boné.... Congelei.
"Você roubou não roubou?" - Não era preciso dois bichos daquele tamanho pra segurar um guri um pouquinho só mais alto do que eu....
"Você ROUBOU, É LADRÃO"
Colocaram o menino atrás de uma arvore, passou um sujeito
"Tudo bem viu, ele é ladrão"
chutaram o guri. chutaram o guri. chutaram o guri..... e eu lá congelada.
Que lei é essa? pune severamente quem só se fode. a policia foi um negocio criado pra reprimir quem foi explorado, e vem fudendo historicamente duas vezes, o mesmo menino preto, magro, alto, de boné....
"Fala que roubou!"
e o menino
.....não ouvi a voz dele. Nem uma vez, nem um grito, nada. Vai ver que ele estava congelado que nem eu...
Aí eu comecei a chorar
e comprei um cachorro quente pra dar pro menino quando parassem de bater nele.... Eu não tive coragem de bater peito com a policia...
"Você tá olhando o quê?"
me mandaram ir embora... Fiquei do outro lado da rua, segurando o hot dog, só consegui pensar nisso... A minha solução é um estúpido hot dog... Esperei.
Esperei.
pra minha surpresa: colocaram o menino na viatura.
congelei de novo e depois do congelamento eu não consegui mais parar de chorar...
Eu vi o mesmo menino sendo revistado na av.7 da forma mais brutal e humilhante que dava pra ser, e depois o mesmo menino de novo, sendo revistado na lavagem do bonfim, depois o mesmo no jornal e ele de novo e de novo e de novo e de novo, até um virar um desses ninguéns de enfeite.
Eu voltei pra casa tentando secar as lágrimas com aquele pedaço de pão que eu comprei e que não era pra mim.... Atravessei o corredor da vitória e o cachorro quente pesada duas mil toneladas....
"Você tá chorando porque, coisinha?"
"É gringa?"
"Você é muito coração. Não fique se doendo que isso acontece todo dia"
Não consegui oferecer o hot dog pro cara, não consegui aceitar que ele podia estar com fome...
Me envergonhei pelo mundo todo.
Quando eu vi estava na frente da casa de Danilo, achei que eu fosse passar mal... Danilo não estava.
Telefonei
"Você não pode sofrer pelo mundo"
Eu não consigo solucionar nem os problemas do meu cotidiano, quem dirá os do mundo. O mundo é muito grande...... Só sei fazer isso: sofrer.
Estar sensível...
Corredor da vitória, Luana e Jamile remexendo no lixo. Sentei por perto.. me acalmei. sempre gostei de ver lixo, coisa quebrada, beco, lama, acho familiar.
Ofereci o hot dog. Elas aceitaram e disseram que eu era bonita.
Voltei pra casa, bonita e de unhas vermelhas.
Seu texto sempre me tira do lugar! É muito bom ler como sua mente funciona, crítica, questionando a si mesma a media que constrói o pensamento. Ao mesmo tempo num pano de fundo latentemente femino. Por conta do hábito de fazer as unhas? Não; pela forma sensível e terrena com que se depara com o mundo, como a fêmea, mãe de todos e que vive em outro tempo. No tempo das mentes que ainda podem salvar a todos, se fossem como uma receita de pão que é só colocar e tirar ingredientes. É isso, tenho a impressão de que sua angústia não vai parar nunca. E sempre que você vomitar vamos identificar nessa gosma todos os meninos a que vc se refere e o cheiro de todo perfume que você já bebeu. Aliás, tudo que você engoliu, que o pensamento masculino é alienado demais para ruminar. Não se engane, comi seu cachorro quente e descobri que o pão é de velcro, assim como esse blog não é um amontoado de letras bonitas.
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